
LOST a Luz das Constelações Familiares
Mônica Clemente (Manika)
E
se pudéssemos abordar LOST por meio das Constelações Familiares?
O que essa série, cheia de camadas, símbolos e
mitologias revelaria sobre “comunidade de destino”, “pertencimento”, “laços do destino”
e ouras descobertas de Bert Hellinger?
Durante
seis temporadas, um grupo de passageiros tenta sobreviver em uma ilha
paradisíaca e misteriosa, após a queda do Voo 815 da Oceanic Airlines.
Cada
um dos personagens traz consigo “bagagens” – histórias marcadas por exclusão e
pertencimento - que precisarão enfrentar ao longo de suas aventuras.
Um
exemplo disso é o Dr. Jack, que carregava o corpo do pai morto no porão do avião.
(Porão, Ilha, selva e oceano podem ser compreendidos como metáforas das profundezas
do inconsciente).
A
sensação de fracasso de Jack, alimentada pela constante competição e exigências
do pai, o perseguia por meio de inúmeras tentativas frustradas - e às vezes
trágicas - de salvar todos a sua volta. Mas
quem o salvaria? Ele precisava fazer tanto para conseguir um pouco de amor e superar
sua baixa autoestima?
John
Locke, por sua vez, descobriu, a duras penas, que a fé move montanhas. Porém,
ela precisa ser humilde diante das forças coletivas, como guerras e pandemias, aqui
representadas fumaça escura – o “monstro”.
Já
Sawyer, marcado pelo luto e pela raiva devido à perda brutal de seus pais na
infância, encontrou redenção ao abandonar a exclusão voluntária e se conectar
com os novos amigos.
Kate,
por outro lado, precisou se reconciliar com as escolhas desastrosas do seu
passado, aprendendo a ser uma pessoa mais confiável e presente para seus amigos
e parceiros.
Sayid
seguiu a “boa consciência” (é esse nome mesmo) de matador e torturador, movido
pelo medo de não pertencer, até finalmente encontrar coragem para avançar até a
“má consciência”: a difícil decisão de agir contra as expectativas do seu grupo.
Hugo,
como todo hipersensível que tenta agradar a todos sem muito discernimento, entra
com contato com seus sentimentos ao longo da jornada e, assim, se torna um
líder amoroso, o que nenhum dos outros conseguiu ser.
E
assim segue os personagens de LOST, com histórias que espelham a complexidade
humana que podem ser abordados por temas centrais das Constelações Familiares.
Do
primeiro ao último episódio, testemunhamos o que Bert Hellinger descreveu como
uma "comunidade de destino". No contexto das Constelações
Familiares, essa expressão refere-se ao fato de que todos os membros de um
sistema familiar – seja uma família, grupo e comunidade - estão profundamente
conectados por um destino compartilhado.
Isso
significa que as ações, escolhas e sofrimentos de um indivíduo dentro desse sistema
impactam os demais, criando laços invisíveis que transcendem gerações.
Hellinger
observou que, muitas vezes, essas conexões se manifestam como identificações
inconscientes com membros da família que foram excluídos, esquecidos ou que
sofreram traumas significativos. Ou pessoas que prejudicamos ou foram
prejudicadas por ancestrais nossos, como os saltos no tempo que os personagens
de LOST fizeram, mostrando conexões com outros indivíduos ao longo das
temporadas.
Assim,
uma pessoa, sem perceber, pode repetir padrões ou carregar cargas emocionais
que não são propriamente suas, como se estivesse tentando "compensar"
ou "curar" algo no sistema familiar.
A "comunidade
de destino", portanto, mostra como estamos interligados dentro de um campo
maior, onde nossas ações e destinos se entrelaçam.
No
último episódio de LOST, fica claro que, apesar de terem histórias individuais carregadas
de traumas, os personagens foram unidos pela ilha em uma experiência
compartilhada que transformou suas vidas para sempre. Mesmo após a morte, eles
permanecem conectados em um "espaço além do tempo", onde precisam se
reencontrar para reconhecer, honrar e liberar aquilo que viveram juntos.
Não importa se suas relações eram de amor, amizade ou
conflito — o que viveram juntos os ligou para sempre. Isso ecoa a ideia de que,
dentro de uma comunidade de destino, ninguém pode ser excluído. Mesmo os
antagonistas, como Ben Linus, têm um papel crucial no sistema.
(De agora em diante tem spoiler)
Assim, os personagens se reúnem em uma "realidade
alternativa", onde cada um ocupa seu lugar e reconhece o impacto dos
outros em sua jornada. Eles precisam se lembrar uns dos outros para seguir em
frente — exatamente como em uma constelação familiar, onde o reconhecimento e a
inclusão permite que o amor flua pelo sistema.
A ideia de que o que passaram juntos "atua sobre
eles até além da morte" reflete a essência da comunidade de destino. Não
importa o que aconteceu em suas vidas individuais; o destino compartilhado na
ilha criou um campo que continua existindo, conectando-os mesmo após a vida
física.
Essa visão está alinhada com a ideia de que as
conexões humanas não estão limitadas pelo tempo ou espaço.
No final de suas vidas, quando relembram os momentos
que tiveram um com o outro se tocando pela “última vez”, é como se os personagens
dissessem: "Você pertence, eu te vejo, e o que vivemos juntos
importa."
Essa mensagem dissolve as amarras dos traumas
individuais e do isolamento, que os mantinham perdidos – lost - permitindo que
eles sigam para a luz — um símbolo de integração e libertação.
FICHA TÉCNICA DE LOST
- Título Original: Lost
- Gênero: Ação, Aventura, Drama, Ficção Científica
- País de Origem: Estados Unidos
- Idioma Original: Inglês
- Número de Temporadas: 6
- Número de Episódios: 121
- Duração dos Episódios: Aproximadamente 40–48 minutos
- Exibição Original: 22 de setembro de 2004 – 23 de maio de 2010
- Emissora Original: ABC / Atuamente está na NETFLIX
Criadores:
- Jeffrey Lieber
- J.J. Abrams
- Damon Lindelof
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